terça-feira, 9 de junho de 2015

As cem linguagens das crianças





A criança é feita de cem.
A criança tem cem mãos
Cem pensamentos
Cem modos de pensar
de jogar e de falar.
Cem sempre cem modos de escutar
as maravilhas de amar.





Cem alegrias para cantar e compreender.
Cem mundos para descobrir.
Cem mundos para inventar.
Cem mundos para sonhar.
A criança tem cem linguagens
(e depois cem cem cem)
mas roubaram-lhe noventa e nove.
A escola e a cultura
lhe separaram a cabeça do corpo.





Dizem-lhe:
de pensar sem as mãos
de fazer sem a cabeça
de escutar e não falar
de compreender sem alegrias
de amar e maravilhar-se
só na páscoa e no Natal.
Dizem-lhe:
de descobrir o mundo que já existe
de cem
roubaram-lhe noventa e nove.





Dizem-lhe:
que o jogo e o trabalho
a realidade e a fantasia
a ciência e a imaginação
céu e a terra
a razão  e o sonho
são coisas que não estão juntas.
Dizem-lhe
que as cem não existem
A criança diz:
ao contrario, as cem existem.

Loris Malaguzzi

Ideias criativas para estimular algumas das múltiplas formas de expressão infantil:







Crianças com autismo curtem a história dos 3 porquinhos da mesma forma que as demais.

Explorar o mundo mágico da imaginação é fornecer conteúdo para o enriquecimento da subjetividade humana e criatividade.







































Pista de carrinho

Fonte: Google imagens

segunda-feira, 8 de junho de 2015

AUTISMO E O DOMÍNIO DA ATENÇÃO

Solange Oliveira

Especialista em Educação Especial

Fonte: Google imagens

 Dentre as características manifestadas por crianças e jovens com autismo, estão aquelas relacionadas a sua dificuldade em manter a atenção concentrada. E, que por sua vez resultam num comportamento disperso, marcado por uma hiperatividade motora, que os levam a passar de uma atividade a outra, de modo frenético; tudo chama a atenção; podendo demonstrar fadiga, como também, a fuga de atividades estruturadas. 

Em crianças mais comprometidas, parece não haver critérios nas escolhas dos movimentos, que aparentam ser aleatórias.

Criança com TEA  em atividade lúdica no EAMAAR

       De acordo com Vygotsky, a história da atenção da criança é a história de sua conduta organizada. Onde o desenvolvimento da atenção e do autocontrole motor estão relacionados à capacidade de apropriação, através da aprendizagem, de conhecimentos mais complexos e abstratos. Uma habilidade que somente se adquire pela educação. Ou seja, não acontece de modo espontâneo.

          Para manter o foco, o cérebro deve ser capaz de filtrar a enorme quantidade de informações e estímulos a que estamos expostos e que nos chegam através dos sentidos. De modo que, possamos estar atentos ao que for mais relevante naquele momento. Graças ao desenvolvimento da atenção é possível manter a concentração em um ambiente barulhento, por exemplo.


Criança com TEA em atividade lúdica no EAMAAR
          
            Daí a necessidade de um trabalho estruturado com crianças com autismo para que estas possam desenvolver a atenção e o autocontrole motor, favorecendo sua aprendizagem e o desenvolvimento tanto de habilidades cognitivas quanto afetivas e sociais.

        Por esta razão, vale a pena investir nas variadas modalidades de jogos e recursos pedagógicos que despertam o interesse deste público, e, paralelamente, promovem o desenvolvimento de competências necessárias ao processo cognitivo.

       Algumas sugestões de jogos que são utilizados nas intervenções pedagógicas de crianças com autismo. Usuários  que apresentam transtornos na aprendizagem e são atendidos no EAMAAR (Espaço de Atendimento Multidisciplinar ao Autista Amigo Ruy). Os resultados foram e continuam sendo surpreendentes.







Pedagoga Solange Oliveira no EAMAAR - Manaus/AM.

domingo, 7 de junho de 2015

NEUROEDUCAÇÃO: A TRILHA SONORA DA APRENDIZAGEM

Fonte: Google imagens

     Muito já se sabe sobre os efeitos da música sobre o comportamento e a saúde mental. Quem não é capaz de lembrar uma trilha sonora que marcou um momento especial em sua vida? De tal modo que ao ouvir a música tem-se a sensação de voltar no tempo.

    No entanto, seus efeitos podem ir além. Recentemente foi citada na Revista Neuroeducação nº 3, uma pesquisa britânica que faz uma correlação entre as batidas por minuto (bpm) de canções e os efeitos sobre o desempenho cognitivo.
Fonte:Google  imagens
   Sabemos que as pessoas aprendem de diferentes formas e ritmos. Há aqueles que necessitam de silêncio para aprender, como também, há os que aprendem vendo, vivenciando e experimentando; e os que gostam de estudar ouvindo música. Para os últimos a pesquisa reforça os efeitos da música sobre a cognição. No entanto, não é qualquer música. Existe uma apropriada para cada habilidade cognitiva.

    A pesquisa britânica foi desenvolvida pela psicóloga Emma Gray, especialista em comportamento cognitivo, cujo resultado demonstrou que ouvir música clássica com 60 a 70 bpm favorece a concentração e o raciocínio lógico. Jovens submetidos a teste de matemática com a música de Beethoven “Para Elise” ao fundo, obtiveram melhores resultados, em média 12% a mais.

Fonte: Google imagens


    Segundo a pesquisa outras músicas mais populares não ficam de fora, com batidas de 50-80 bpm, entre as quais We can’t stop, de Miley Cyrus e Mirrors, de Justin Timberlake, permitem uma memória mais eficiente. Outras podem estimular a criatividade como o clássico de Rock (I can’t get no) Satisfaction, dos Rolling Stones. Vale ressaltar que a pesquisa foi patrocinada por um serviço de música on-line e que são necessários mais estudos para comprovar os efeitos citados.

    Sugestões da psicóloga Emma Gray,  para estimular:

Criatividade

Beauty and a beat – Justin Bieber e Nicki Minaj
Firework – Katy Perry
Kiss you – One Direction
(I can’t get no) Satisfaction – Rolling Stones

Pensamento lógico

Halo – Beyoncé
O lago dos cisnes – Tchaikovsky
Mirrors – Justin Timberlake
Ode à alegria – Beethoven
Para Elise – Beethoven



Fonte:  Google imagens










Então... 
Se nenhuma das opções for do seu agrado, escolha sua trilha sonora e bons estudos!!!!


quarta-feira, 3 de junho de 2015

11 MANDAMENTOS PARA PAIS DE CRIANÇAS COM AUTISMO

1. “Não manterás seu filho preso em casa”

     Todos nós sabemos como é difícil sair com crianças autistas para restaurantes, viagens, shoppings, aniversários e outros eventos sociais. Muitas vezes, nossos filhos tendem a correr sem rumo, não sabem esperar e se sentem incomodados com a quantidade de estímulos que encontram no ambiente externo. Mas o único jeito de ensiná-los a se comportar nesses lugares – e a tolerar o excesso de estímulos – é estando com eles nesse momento. Não poupando-os e mantendo-os sempre na sua zona de conforto.
Espaço do Autista - EAMAAR/Manaus-AM


     Por outro lado, vivemos dizendo que o mundo precisa aprender a lidar com a diversidade. Mas como, se as pessoas que são “diferentes”, muitas vezes, mal saem de casa? Temos, também, esse papel social de acostumar a sociedade a conviver com a diferença dos nossos filhos. Se você vê seu filho como um “coitado” incapaz de conviver em sociedade, é assim que ele será visto pelos outros também.

2. “Não terás medo de trocar as terapeutas”

     Por mais que a gente queira manter um certo distanciamento profissional, acabamos nos envolvendo com as terapeutas dos nossos filhos. E, quando notamos que aquela abordagem não está mais fazendo o efeito desejado, nos sentimos culpadas por sequer pensar em trocar aquela profissional…a gente acaba levando muito pro lado pessoal. Mas isso faz parte da vida: terapias param de funcionar. Você substitui e, daí há um tempo, pode ser que volte à primeira. É importante seguir o seu feeling. Faz quantos meses que você não nota nenhum progresso palpável no desenvolvimento do seu filho? Pode ser essa a hora de variar a abordagem.

Espaço do Autista - EAMAAR/Manaus - AM

3. “Procurarás ter contato com outras mães na mesma situação”

     Esse, pra mim, é um dos principais. Quando nosso filho recebe um diagnóstico de autismo, nos sentimos sem chão. Acabamos confiando totalmente naquele médico que deu o diagnóstico e no direcionamento que ele vai dar para o tratamento. Isso não é errado nem ruim. Mas, acontece que há muitas mães por aí que, após longos anos nessa caminhada, acabam sabendo mais sobre tratamentos e abordagens que muitos médicos. Mães totalmente autodidatas e dispostas a compartilhar esse conhecimento. E você pode poupar um tempo precioso se resolver ouvi-las. Nada substitui a experiência de uma pessoa que passou pela mesma situação que você!

4. “Questionarás a tudo e a todos”

     O médico sugeriu uma medicação? Tente entender o porquê e se ela realmente é indispensável. Uma conhecida te sugeriu um tratamento? Procure na internet, converse com outros pais, entenda se faz sentido. A terapeuta se fecha com seu filho na sala e você não sabe o que se passa durante a sessão? Solicite a ela uma filmagem para acompanhar. É seu direito como mãe ou pai! Você não pode ficar no escuro! Não aceite nada “goela abaixo” sem estar totalmente confortável e sem entender perfeitamente do que se trata. É da vida do seu filho que estamos falando.

Espaço do Autista/- EAMAAR/Manaus - AM


5. “Acreditarás no potencial do seu filho”

     Isso pode fazer toda a diferença. Se a criança sente que o pai ou mãe não acredita que ela pode superar seus próprios desafios, por que ela vai tentar? Se um profissional sente que os pais não levam muita fé naquela criança, por que vai se esforçar para fazê-la progredir?
Acredite no seu filho! Ele vai retribuir!
Acredite no seu filho! Ele vai retribuir!

6. “Repetirás, persistirás e insistirás sempre”

     Muitas vezes, as crianças com dificuldades de aprendizado precisam de MUITA repetição para absorverem um comportamento ou habilidade nova. Isso pode ser extremamente cansativo para os pais.

     Lembro quando estávamos tentando ensinar o Theo a apontar para o que queria, aos 2 anos de idade, já com o diagnóstico de autismo. Pegávamos aquela mãozinha gordinha e miúda, esticávamos o dedinho indicador e falávamos “aponta, Theo, com o seu dedinho”. Quantas vezes eu chorei, quantas vezes eu pensei que era tudo em vão, porque ele parecia não fazer o menor esforço para esticar aquele dedo. Até que um dia…após um ano de tentativas, ele começou a apontar para tudo, frenético, sem parar! O mesmo aconteceu com o “dá”. Foi-se, aí, mais de um ano de tentativas. O uso do Ipad, também.

     Insista e nunca desista! Um dia, aquela habilidade vai vir!

Espaço do Autista/EAMAAR - Manaus/AM


7. “Não compararás seu filho com as outras crianças”

     Apesar de ser muito, MUITO difícil, isso é uma coisa que temos que trabalhar. Assim que temos o diagnóstico, em meio ao luto e ao sofrimento, tendemos a comparar nossos filhos com outras crianças típicas da mesma idade. Isso é muito doloroso, porque logo percebemos a distância que há entre o desenvolvimento de uns e outros.

     Após algum tempo, passamos a comparar nossos filhos autistas com outras crianças no espectro. E isso também não é legal. Sempre vai haver uma criança que falou antes, ou que aprendeu a brincar de carrinho antes, ou que deixou as fraldas antes. O espectro é muito amplo, e se você fica comparando seu filho a outras crianças, perde o foco das características incríveis e únicas que só ele tem.
Compare seu filho de hoje com quem ele era há 3 meses. Assim, fica mais fácil e mais justo, concorda?
 
Espaço do Autista - EAMAAAR/Manaus - /Am

8. “Não falarás do seu filho como se ele não estivesse ali”

     Algumas crianças autistas podem não falar, mas entendem TUDO. Já cansei de ouvir relatos de mães de crianças que só falaram após os 6 anos de idade, mas que contavam coisas de quando tinham apenas 4…e não falavam. Imagine como deve ser ouvir uma pessoa falando de você, na sua frente, e você não conseguir se manifestar a respeito?

9. “Não perderás o sono pensando no futuro”

     Ninguém sabe o que o futuro reserva. A ciência tem feito grandes progressos. As intervenções terapêuticas estão cada vez mais precisas. Acredite que tem algo de bom esperando o seu filho no futuro! Invista na independência dele e espere para colher os frutos. Faça a sua parte, mas não perca o sono pensando no “e se”. Isso só traz ansiedade, tristeza, e nenhum ganho para a família.


Espaço do Autista/EAMAAR - Manaus/Am

10. “Aprenderás a levar a vida com mais leveza”

     A falta de tato social dos nossos filhos autistas provoca situações embaraçosas às vezes. O Theo, por exemplo, tem a mania de se aproximar das pessoas pegando no bumbum…

     Claro que devemos ensinar sempre os comportamentos mais apropriados aos nossos filhos, mas que tal não morrer por causa de certas situações? Seu filho limpou a boca na roupa da tia? Peça desculpas a ela, diga a ele que é no guardanapo que ele deve limpar a boca e vá rir no cantinho. As coisas têm o peso que damos a elas, concorda?

11. “Não terás vergonha de pedir ajuda”

     Vivemos correndo uma maratona. Matando vários leões por dia. Nossa vida não é fácil. Parece que a gente não pode nem se dar ao luxo de ficar doente (falei disso no último post). Se você está esgotado, não vê luz no fim do túnel, está deprimido, não consegue cuidar do seu filho como deveria, PEÇA AJUDA! Há vários grupos de pais na internet, várias ong’s, várias pessoas dispostas a ajudar quem precisa.

     Nos Estados Unidos, quando uma criança é diagnosticada com autismo, é assumido que toda a família deve ser “tratada”. Todos precisam de suporte psicológico. Para que você possa ajudar seu filho, precisa estar bem. “Coloque sua máscara de oxigênio primeiro”.
É uma frase batida, mas muito importante!

Autora:  Andrea Werner Bonoli
|http://lagartavirapupa.com.br

domingo, 9 de novembro de 2014

NÃO CHOREM POR NÓS

    
            Os pais geralmente contam que reconhecer que seu filho é autista foi a coisa mais traumática que já lhes aconteceu. As pessoas não autistas veem o Autismo como uma grande tragédia, e os pais experimentam um contínuo desapontamento e luto em todos os estágios do ciclo de vida da família e da criança.

Mas este pesar não diz respeito diretamente ao autismo da criança. É um luto pela perda da criança normal que os pais esperavam e desejavam ter, as expectativas e atitudes dos pais e as discrepâncias entre o que os pais esperam das crianças numa idade particular e o desenvolvimento atual de seu próprio filho causam mais estresse e angústia que as complexidades práticas da convivência com uma pessoa autista.


Samuel - Arquivo pessoal

 Uma certa quantidade de dor é normal, até os pais se ajustarem ao fato de que o resultado e o relacionamento que eles estavam esperando não vai se materializar. Mas esta dor pela criança normal fantasiada precisa ser separada da percepção da criança que eles realmente têm.

A criança autista que precisa de adultos cuidadosos, pode obter um relacionamento muito significativo com essas pessoas que cuidam dela, se lhes for dada a oportunidade. Atentar continuamente para o Autismo da criança como a origem da dor é prejudicial tanto para os pais como para a criança e impede o desenvolvimento de uma aceitação e de um relacionamento autêntico entre eles. Em consideração a eles próprios ou à suas crianças, eu conclamo os pais a fazerem mudanças radicais nas suas opiniões sobre o que o Autismo significa.


Kelvyn - Arquivo pessoal


Eu convido vocês a olharem para o nosso autismo e olharem para o seu luto sob a nossa perspectiva .

O Autismo não é um apêndice. O autismo não é algo que uma pessoa tenha, ou uma concha na qual ela esteja presa. Não há nenhuma criança normal escondida por trás do Autismo. O Autismo é um jeito de ser, é pervasivo, colore toda experiência, toda sensação, percepção, pensamento, emoção e encontro; todos os aspectos da existência. Não é possível separar o Autismo da pessoa. E se o fosse, a pessoa que você deixaria não seria a mesma com a qual você começou.

Isto é importante, então, tire um momento para considerar que : Autismo é um jeito de ser. Não é possível separar a pessoa do Autismo.



Marcos Vinicius - Arquivo pessoal

Por conseguinte, quando os pais dizem: "Gostaria que meu filho não tivesse Autismo". O que eles realmente estão dizendo é: "Gostaria que meu filho autista não existisse, e eu tivesse uma criança diferente em seu lugar".

Leia isto novamente. Isto é o que ouvimos quando vocês lamentam por nossa existência. É o que percebemos quando vocês nos falam de suas mais tenras esperanças e sonhos para nós: que seu maior desejo é que, um dia, nós deixemos de ser, e os estranhos que vocês possam amar vão surgir detrás de nós.

Autismo não é uma parede impenetrável.

Você tenta falar com seu filho autista e ele não responde. Ele não te vê. Você não consegue alcançá-lo. Não há adentramento. É a coisa mais difícil de lidar, não é? A única coisa é que isso não é verdade.



Murilo - Arquivo pessoal

Veja novamente: você tenta falar como pai de uma criança, usando seu próprio entendimento de uma criança normal, seus próprios sentimentos sobre relacionamentos. E a criança não responde de forma que você possa reconhecer como sendo parte desse sistema.

Isso não significa que a criança esteja totalmente incapacitada para se relacionar. Só significa que você está assumindo um sistema compartilhado, um entendimento compartilhado de sinais e significações do qual a criança em questão não participa.

É como se você tentasse ter uma conversa íntima com uma pessoa que não tem compreensão de sua linguagem. É óbvio que a pessoa cuja linguagem não vai entender o que você está falando; não vai responder da forma que você espera; e pode mesmo achar confusa e desprazeirosa toda a interação.


Francisco - Arquivo pessoal
Dá mais trabalho se comunicar com uma pessoa cuja linguagem não é a nossa. E o Autismo vai mais fundo que a linguagem e a cultura. Os autistas são estrangeiros em quaisquer sociedades. Você vai ter que abrir mão de toda a sua apropriação de significados compartilhados. Você vai ter que aprender a voltar a níveis mais básicos, sobre os quais provavelmente você nunca tenha pensado, vai ter que abandonar a certeza de estar em seu próprio território familiar de conhecimento, do qual você está a serviço e deixar seu filho lhe ensinar um pouco de sua linguagem, guiá-lo um pouco para dentro de seu mundo.

Mesmo que você tenha sucesso, ainda não será um relacionamento normal entre pai e filho. Sua criança autista pode aprender a falar, pode ir para séries regulares na escola, pode ir à Universidade, dirigir um carro, viver independentemente, ter uma carreira, mas nunca vai conversar com você como outras crianças conversam com seus pais. Ou, sua criança autista pode nunca falar, pode passar de uma sala de educação para programas de oficina protegida, ou residências especiais, podem precisar por toda a vida de cuidado e supervisão de tempo integral - mas essa tarefa não está completamente fora do seu alcance. As formas que relatamos aqui são diferentes. Levam para coisas que suas expectativas dizem que são normais, e você vai encontrar frustração, desapontamento, ressentimento, talvez até raiva e ódio. Aproxime-se respeitavelmente, sem preconceitos e com abertura para aprender novas coisas, e você vais encontrar um mundo que nunca poderia ter imaginado.

Daniel - Arquivo pessoal

Sim, isto dá mais trabalho que falar com uma pessoa não autista. Mas pode ser feito - a não ser que as pessoas não autistas estejam muito mais limitadas que nós em sua capacidade de se relacionar. Levamos a vida inteira fazendo isso. Cada um de nós que aprende a falar com vocês, cada um de nós que funciona bem na sua sociedade, cada um de nós que consegue alcançar e fazer um contato com vocês está operando em um território estranho, fazendo contato com seres alienígenas. Passamos a nossa vida inteira fazendo isso. E então, vocês vêm nos dizer que não podemos falar.

Autismo não é morte.

Certo, o autismo não é o que muitos pais esperam e se preparam quando antecipam a chegada de uma criança. O que esperam é que uma criança vai parecer com eles, vai pertencer ao seu mundo e falar com eles sem um treinamento intensivo para um contato alienígena. Até se a criança tem alguns distúrbios diferentes do Autismo, os pais esperam estarem aptos a falarem com ela de modo que pareça normal para eles, e na maioria dos casos, mesmo considerando a variedade de distúrbios, é possível formar um tipo de laço que os pais têm estado almejando.



Ana Beatriz - Arquivo pessoal
O que acontece é que se esperava uma coisa que era extremamente importante e desejada com grande contentamento e excitação, e talvez, gradualmente, talvez abruptamente, teve-se de reconhecer que a coisa almejada não aconteceu. Nem vai acontecer. Não importa quantas crianças normais você tenha, nada vai mudar o fato de que agora, a criança que você esperava, desejada, planejada e sonhada, não chegou .

É parecido com a experiência parental de ter, por pouco tempo, uma criança recém-nascida e esta morrer logo na infância.

 Não se trata de Autismo, mas de expectativas cortadas. Sugiro que o melhor lugar para direcionar estes assuntos não seja as organizações voltadas para o Autismo, mas no aconselhamento das aflições parentais e grupos de apoio. Nesses espaços eles aprendem a dar termo à sua perda - não esquecê-la, mas deixar no passado, onde o luto não bate mais no seu rosto a todo o momento da vida. Aprendem a aceitar que sua criança se foi para sempre e que não voltará mais. O mais importante é que aprendam a não trazer seu luto para as crianças que vivem. Isto é de importância fundamental, quando estas crianças chegam ao mesmo tempo em que a outra está sendo lamentada pela sua morte.


Fernando -  Arquivo pessoal

Não se perde uma criança para o Autismo. Perde-se uma criança porque a que se esperou nunca chegou a existir. Isso não é culpa da criança autista que, realmente, existe e não deve ser o nosso fardo.

Nós precisamos e merecemos famílias que possam nos ver e valorizar por nós mesmos, e não famílias que têm uma visão obscurecida sobre nós por fantasmas de uma criança que nunca viveu.

Chore por seus próprios sonhos perdidos se você precisa. Mas não chore por nós. Estamos vivos. Somos reais. Estamos aqui esperando por  você .

É o que acho sobre como as sociedades sobre autismo devem ser: sem lamentações sobre o que nunca houve, mas deve haver explorações sobre o que é. Precisamos de você. Precisamos de sua ajuda e entendimento. Seu mundo não está muito aberto para nós e não conseguiremos se não tivermos um forte apoio.


Wendel -  Arquivo pessoal
Sim, o que vem com o Autismo é uma tragédia: não pelo que somos, mas pelas coisas que acontecem conosco. Fique triste com isso se quiser ficar triste com alguma coisa! Melhor que ficar triste com isso é ficar louco com isso - e então faça alguma coisa. A tragédia não é porque estamos aqui, mas porque o seu mundo não tem lugar para que nós existamos.

Como pode ser de outra forma,               se nossos próprios pais ainda se lamentam por nos terem trazido para este mundo ?

Olhe, alguma vez, para o seu filho autista e tire um momento para dizer para si mesmo quem aquela criança não é.

Sarah - Arquivo pessoal

Pense: "Essa não é a criança que esperei e planejei. Não é aquela que fiz todos aqueles planos e dividi todas aquelas experiências. Aquela criança nunca veio. Não é esta criança". Então vá fazer do seu luto, não importa o que - e comece a aprender a deixar as coisas acontecerem.

Depois que você começar a deixar as coisas acontecerem, volte e olhe para o seu filho autista novamente: "Esta criança não é a que eu esperava e planejava. É uma criança alienígena que caiu em minha vida por acidente. Não sei o que é essa criança ou o que vai ser. Mas sei que é uma criança naufragada num mundo estranho, sem pais com formas próprias de cuidado. Precisa de alguém com cuidados para isso, para ensinar, para interpretar e para defender. E devido a essa criança alienígena cair na minha vida, esse trabalho é meu, se eu quiser”.


João Luiz e Pedagoga Solange Oliveira  - Arquivo pessoal

Se esta busca te excita, então nos acompanhe, na resistência e na determinação, na esperança e na alegria. A aventura de uma vida está toda diante de você.

JIM SINCLAIR.
Sobre o autor:
Jim Sinclair foi diagnosticado com autismo, atualmente, é um ativista dos direitos de pessoas com autismo.  Nasceu em dezembro de 1961, no Texas, EUA. Tem formação universitária em psicologia e é especialista em desenvolvimento infantil e processos de reabilitação. Na década de 90, participou da criação de um dos primeiros grupos formados por autistas, a Autism Network International (ani.autistics.org). O discurso acima foi dirigido especialmente aos pais, na Conferência Internacional de Autismo, em Toronto.